terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Espetáculo da Vacuidade: Uma Análise Tomista sobre o BBB 26 e a Gestão do Tempo

No alvorecer de 2026, o Brasil volta seus olhos novamente para a “casa mais vigiada do país”. O Big Brother Brasil, em sua 26ª edição, apresenta-se como um coliseu moderno, onde a plebe e o patriciado digital (Camarotes, Veteranos e Pipocas) digladiam-se não por sangue, mas por reputação e cifras milionárias.

Para o filósofo contemporâneo, a questão não é apenas estética ou de gosto, mas eminentemente moral. Como Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, analisaria o ato de dedicar horas preciosas à observação da vida alheia? A resposta reside na compreensão da natureza do tempo e na virtude da eutrapelia.

1. O Tempo como “Continuum” de Mérito

Para Santo Tomás, o tempo não é apenas uma medida física do movimento (como definia Aristóteles), mas, teologicamente, é o espaço da misericórdia divina concedido ao homem para a conquista da Beatitude.

Cada instante é irrevogável. O tempo é o tecido do qual a vida moral é feita. Na Summa Theologiae, Tomás nos ensina que a ordenação da vontade ao Fim Último (Deus) deve permear nossas ações. Portanto, o tempo gasto em qualquer atividade deve ser julgado pela sua finalidade (finis operis).

Se o tempo é o recurso escasso para a salvação e para o aperfeiçoamento das virtudes, o desperdício dele em frivolidades não é neutro; é uma desordem. A acédia (preguiça espiritual) muitas vezes se disfarça de “ocupação” com o trivial para fugir do essencial.

2. Eutrapelia: O Descanso Necessário vs. A Dissipação

Poderia alguém objetar: “Mas Tomás, o homem não precisa de descanso?”

Sim. Na Suma Teológica (II-II, q. 168, a. 2), Aquino resgata a virtude aristotélica da eutrapelia (o bom humor ou a justa diversão). Ele argumenta que, assim como o corpo fadigado precisa de repouso, a alma, fatigada pelo trabalho da razão, precisa de “prazer lúdico”.

Contudo, para que o entretenimento (assistir ao BBB, por exemplo) seja virtuoso, ele deve obedecer a três condições:

  1. Não buscar o prazer em ações indecentes ou prejudiciais (não se deleitar no pecado alheio).

  2. Não perder o equilíbrio da mente (não se tornar obcecado, alienado da realidade).

  3. Ser proporcional às pessoas, tempo e lugar (não negligenciar deveres de estado).

Aqui reside o problema central do reality show. O objeto de entretenimento muitas vezes não é o jogo inocente, mas a dissecção moral: a fofoca (detractio), a ira, a luxúria e a exposição da intimidade. Quando nos divertimos com a degradação moral do outro ou com a discórdia, não estamos praticando a eutrapelia, mas alimentando vícios.

3. A Curiositas vs. A Studiositas

Santo Tomás distingue brilhantemente a studiositas (o desejo ordenado de saber as coisas que nos aperfeiçoam) da curiositas (o desejo desordenado de saber o que não nos compete).

O BBB é o templo da curiositas. É o desejo de conhecer a vida privada, as falhas ocultas e os conflitos domésticos de estranhos. Tomás alerta que a curiosidade viciosa dispersa a mente, afastando-a do que é verdadeiramente inteligível e necessário. Ao preencher o intelecto com a vacuidade das intrigas de um “Paredão”, o homem diminui sua capacidade para a contemplação das verdades eternas ou mesmo para a resolução dos problemas reais de sua própria vida familiar e profissional.

4. A Prudência no Olhar

Não se trata de um puritanismo que proíbe o lazer, mas de uma hierarquia de valores. O tomista que observa o fenômeno de 2026 deve perguntar-se:

"Este tempo dedicado a observar a vida de Solange Couto ou dos novos 'Pipocas' restaura minhas forças para que eu sirva melhor a Deus e ao próximo, ou ele drena minha alma, enchendo-a de ruído, julgamento temerário e imagens vãs?"

O tempo é a moeda da eternidade. Gastá-lo excessivamente assistindo a vidas alheias trancadas em uma casa artificial é, ironicamente, manter a própria alma trancada na caverna das sombras, longe da luz da realidade.

Como diria o Aquinate: “É necessário que o homem, em suas ações, se conduza pela razão.” Se a razão diz que o tempo é breve e o fim é eterno, que o nosso descanso seja para recompor as forças, e não para entorpecer o espírito.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Maduro Preso: Por Que o Mal Nunca Compensa (Uma Análise Tomista)

A notícia que amanheceu nos trending topics deste dia 3 de janeiro de 2026 não é apenas um fato político; é uma lição metafísica. A prisão de Nicolás Maduro, confirmada e repercutida globalmente, encerra um ciclo de tirania que, aos olhos da filosofia perene, já carregava em si a semente de sua própria destruição. Não olho para este evento apenas com a lente do noticiário internacional, mas sob a luz da Suma Teológica e do opúsculo De Regno. A queda de um tirano nunca é um acidente; é a consequência inevitável da natureza do mal.

A Natureza do Mal: Privatio Boni

Para entender por que o mal "nunca compensa" — e por que regimes como o de Maduro estavam fadados ao colapso —, precisamos recorrer à definição de mal em Santo Tomás de Aquino. O mal não tem substância própria; ele não é uma essência criada por Deus. O mal é privatio boni, a privação do bem. É uma ausência, um buraco na realidade, assim como a escuridão é apenas a ausência de luz.

Um regime político que se sustenta na mentira, na opressão e na injustiça é, ontologicamente, um "não-ser". Ele carece de fundamento na verdade. Durante anos, a estrutura de poder na Venezuela tentou se manter de pé ignorando a Lei Natural, que ordena que o governo deve servir ao bem comum e não aos apetites privados do governante. Ao agir contra a realidade das coisas, o tirano constrói um castelo sobre a areia. A prisão de Maduro hoje é a manifestação física dessa verdade metafísica: o mal não tem sustentação para durar eternamente. O que não tem "ser" (verdade e bondade) acaba, invariavelmente, ruindo.

O Tirano e o Bem Comum: Uma Leitura do De Regno

Em sua obra De Regno (Do Reino), dedicada ao Rei de Chipre, Santo Tomás é cirúrgico ao definir o tirano: é aquele que governa buscando o próprio benefício, desprezando o bem da multidão. A tirania é considerada o pior dos regimes, pois corrompe o melhor (a monarquia justa) em seu oposto mais vil.

Aquinas argumenta que o governo tirânico é instável por natureza. O tirano vive dominado pelo medo, pois quem governa pelo temor e não pelo amor nunca está seguro. A riqueza acumulada ilicitamente, o poder mantido pela força bruta e a supressão das liberdades individuais geram um estado de violência constante que se volta contra o próprio opressor.

A prisão de Maduro ilustra perfeitamente a tese tomista: a tirania isola o governante. Ao buscar um "bem particular" (seu poder e riqueza) em detrimento do "bem universal" da nação, ele se separa da ordem divina. Santo Tomás nos lembra que a amizade é o vínculo que une a sociedade; o tirano, ao destruir a amizade cívica, destrói a base do seu próprio trono. Ele termina sozinho, pois, como dizia o Aquinate, não pode haver lealdade firme onde não há virtude.

A Justiça e a Lei Eterna

Muitos podem perguntar: "Por que demorou tanto?". A perspectiva humana é limitada pelo tempo, mas a Justiça Divina opera na eternidade e reflete-se na história de maneiras misteriosas. Santo Tomás ensina que Deus pode permitir a existência de tiranos como uma forma de punição ou provação para um povo, mas essa permissão não é uma aprovação.

O mal nunca compensa porque ele carrega sua própria punição. Mesmo antes das algemas, o tirano já vivia em uma prisão espiritual. A perda da beatitude, a inquietação da alma e a incapacidade de contemplar a Verdade são castigos piores que qualquer cela física. A prisão material de hoje é apenas a externalização da miséria moral que já habitava aquele governo.

Além disso, a Lei Eterna garante que a ordem violada tende a se restabelecer. A justiça humana, falha e tardia, quando finalmente age em conformidade com a Lei Natural, torna-se um instrumento da Providência. Ver a justiça sendo feita não é motivo de vingança ("schadenfreude"), mas de alívio pelo retorno à ordem. A sociedade precisa ver que a lei vale para todos, para que a confiança na justiça seja restaurada.

O Caminho para a Reconstrução

A Venezuela agora enfrenta o desafio da reconstrução. E aqui, mais uma vez, a lição de Tomás de Aquino é vital. Não basta trocar de governante; é preciso restaurar a virtude. Um país não se levanta apenas com economia, mas com homens e mulheres dispostos a buscar o Bem Comum acima dos interesses privados.

Que a imagem de Maduro preso sirva de memento mori para todos os governantes que flertam com o totalitarismo. O poder que não serve, não serve. O mal pode florescer por um tempo, como a erva daninha, mas, por não ter raízes na verdade do ser, ele seca e é lançado ao fogo. A verdade, e somente a verdade, liberta — tanto as almas quanto as nações.